sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Cidadela

Da janela a paisagem suja de corpos vestidos de tanta vaidade, despidos de amor, suados, pegajosos, usados. Abria a cortina vezes e vezes sem conta, a cada instante em que a incerteza de ter direito de amar lhe assaltava. Olhava sobre o parapeito e contemplava o mundo, tão incerto, tão sujo, tão indigno de ser amado.
Mas era esse o lugar, o Homem contempla-o, contempla-o e venera-o, deseja, possui.
E perante tão ingrata e incompreendida luta baixa os braços, recolhe os lábios. Não pede que lhe abracem, que lhe beijem, é fraca a mente humana, cega, sem sentido.
Risos miúdos e perturbadores perfuram-lhe a alma, chamam-lhe ridículo. Súbita lucidez faz com que feche a janela, corre as cortinas, acende o pequeno e tosco candeeiro e num movimento bruto e repentino deita-se na poltrona, engole o sentimento de solidão que lhe assalta, mata assim a sede de ilusão que todos os dias precisamente à mesma hora o seu corpo denuncia.
Agora adormecido sonha.
Sexta-feira noite cerrada, lá fora a lua iluminava toda uma cidade, silenciosa, suja, húmida. Habitada por grandes e pequenos seres que se transformam à noite naquilo que realmente são. Ratos, baratas, prostitutas, homens… todos famintos à procura de alimento. Baratas e Ratos esgravatam no lixo à procura de restos de comida, prostitutas procuram restos na alma humana, homens procuram restos de carne humana.
Lá dentro também se procurava, recorda-se como se tempo algum tivesse passado. Sexta-feira noite cerrada, lá fora a lua iluminava toda uma cidade silenciosa… cá dentro um pequeno e tosco candeeiro iluminava um grande ser. Era o homem, silencioso e sozinho, era ele. Hoje, ontem, ao raiar e ao cair do sol. Sempre o mesmo, sem expressão alguma no rosto.
Duro, inflexível.
Não iria resultar com ele...
Insignificante tapou o sorriso, fechou a boca, ajeitou o corpo, tentou a todo o custo melhorar a postura, o banco era pequeno demais, estreito, excessivamente íntimo.
Da poltrona olhou-a. Nem um único sinal de desprezo, nem um pingo de compaixão, nem um único ruído de rancor.
Recusou ensina-la.
Fechou a porta
Encolheu o corpo, e protegeu a sua alma.