
Inclinava o corpo com delicadeza forçada de uma boneca de porcelana. Era tudo aquilo e nada mais. A vontade de debruçar o corpo era não mais que isso.Vontade, desejo utópico.
Entre a delicadeza dos seus traços, entre o sorriso ,permanente, pintado de uma só vez... Não restava história de vida alguma que justificasse tão mística e vazia alegria.
Olhos azuis seriam sempre olhos azuis. Nem espaço para vermelho sangue, nem azul lacrimejante. Eram simplesmente azuis. Cada tentativa forçada de fechar os olhos e esquecer,resultava em pequenos pedaços de porcelana soltos.
E ia perdendo algo de si, quando o simples desejo de ser gente tomava conta do seu frágil corpo.
Doía-lhe a alma dos pés, a alma das suas pernas... E lançava-se num desejo infindável de sentir dor física. Pesava-lhe na existência os dez anos de ballet contínuo, os dez anos de posse sofrida e delicada de postura.
Quantas e quantas vezes desejou somente tombar, inclinar-se sem ter de reflectir. Ajoelhar-se.
Não suportava a música. Ouvia-a apenas. Um dia ,no centro de todos os dias que a ela não pertenceram, Parou. Não mais dançou.
Ouvi o estilhar do seu corpo.Pedaços de pálida porcelana caíram aos meus pés.
Tornara-se humana. Afinal não era imortal!



