sábado, 20 de setembro de 2008

Descansa...

Quando as palavras são demasiado minhas não existe perfeição. Sou apenas eu a falar, imperfeita, humana.
E digo aquilo que quero, aquilo que amo, aquilo que odeio. Entender-me passa a dar trabalho, e reduzo para mais de metade o meu mundo . Num esforço inútil de me fazer entender vou deixando para trás verdades inconvenientes, palavras duras, lágrimas vertidas, sonhos escondidos, mundos temidos.
Depois, o silêncio deixa de incomodar. Depois, o diálogo parece resultar.
Agora sou apenas eu, inteira. Deixo de ter medo de ti, da tua reprovação, falsos elogios, frases feitas, demasiado perfeitas. Choro sem medo, choro, choro, choro, agora que conheço tenho ainda mais medo e não tenho como escondê-lo.
Estou nua, completamente nua e ainda assim deixo que me abraces, a luz incide directa e violenta sobre mim. Sim, sou eu! O meu corpo, a minha alma. Sim, é teu! O meu corpo, a minha alma.
Aqui! Aqui! São estes os meus defeitos,vês? Toca! Não os tens também?
Recuas,é claro! Felizmente recuas, felizmente temes, és também tu, és tu… Tens também medo, tens também duvidas, tens também o que esconder, o que temer.
Descansa!
Luz nenhum incidirá sobre ti, cruel, fria, violenta, não enquanto quiseres,não enquanto não deixares. Dorme, continua a sonhar com a perfeição da tua vida, tu e um prado, um único prado, um único legitimo animal.
Não perdoes quanto não tens perdoar, não ames se entendes que não tens de amar, mente quando sentires que deves mentir, odeia se a tua vontade é odiar, despreza se a única saída é desprezar.
Mas pára de me apontar, não me pendures, não alistes as minhas falhas, não o faças! Não enquanto não deixares que a luz recaia também sobre ti, não enquanto não chorares.
As minhas falhas tocaram-te apenas, não te pertencem. Pára! Cala-te! Escuta-te e chora, reconhece-te!
Vês agora? Sou eu, és tu, é ela! Sim aquela és tu, é ele!
Somos nós. Afinal somos nós, únicos , iguais, imperfeitamente iguais.
Descansa...
Escolhi acompanhar o teu sonho sem uma única vez sentir vontade de te ver por inteiro, sem nunca sentir vontade de apontar um único raio de luz sobre ti.
Pede! E eu caminharei no escuro contigo lado a lado, descobrindo através do tacto, da audição,do olfacto, do paladar aquilo que a visão não me permite, aquilo que simplesmente escolheste esconder.
Descansa…

1 comentário:

Anónimo disse...

simplesmente perfeito... continua sempre a escrever pk escreves muito bem acredita. ****