domingo, 28 de setembro de 2008

Navegando...

Sobre o balanço de um grande barco, sobre o sopro eficaz de um vento,
A viagem torna-se tão curta e tão vaga.
Apetece empurrar e puxar, puxar,
Apetece fazer força.
É falso quando é fácil.
Quem disse que o concreto é delicioso,
se o prazer é abstracto.
A experiência de falhar e voltar a tentar,
a possibilidade da negação se tornar positiva.
O teu cheiro ser apenas uma brisa comum e passageira,
e mesmo assim ser agradavelmente única.
Sobre o balanço de um pequeno barco, sobre o sopro sofrido de outro vento.
A viagem torna-se longa e o prazer aumenta, e aumenta
E no auge, de todo o prazer, o cansaço vence.
A necessidade de outro dia teres de chegar,
voltas a viajar, o prazer volta, mas volta com mais força.
Á vela tudo parece ser mais real,
Sentes o suor escorrer-te na cara, os músculos doridos,
sentes necessidade de dormir, podes sonhar!
O barulho do motor torna-se incomodativo, fútil,
cheira demasiadamente bem, não existe suor,
não existe necessidade de dormir.
Não há tempo nem possibilidade de sonhar.
Evita a bússola, não busques orientação
Orienta-te!
Que a necessidade de água potável e alimento,
te façam, pensar, e te obrigue a velejar.
Que razão tem o vento?
Aquele assobio, hipócrita e presunçoso, que chora sobre ti,
em busca da razão que não têm, em busca do reconhecimento,
Da força, que apenas o concreto consegue derrubar,
da força tão igual ao menor do que as águas,
que sustentaram e continuam a sustentar o teu barco.
Ao balanço das ondas, veleja, com toda a tua força.
Ama o abstracto quando o concreto nada te diz.
Exista ou não um cais, um porto.
Gozaste o prazer da viagem feita por ti.
Agora apenas tu podes tocar nos teus calos, e sarar as feridas.
Saboreia a vitória!
O cais é feito por ti, não tem betão.
É feito de sonhos...
O abstracto tornou-se real,
e atracou vencedor.

sábado, 20 de setembro de 2008


Descansa!

Descansa...

Quando as palavras são demasiado minhas não existe perfeição. Sou apenas eu a falar, imperfeita, humana.
E digo aquilo que quero, aquilo que amo, aquilo que odeio. Entender-me passa a dar trabalho, e reduzo para mais de metade o meu mundo . Num esforço inútil de me fazer entender vou deixando para trás verdades inconvenientes, palavras duras, lágrimas vertidas, sonhos escondidos, mundos temidos.
Depois, o silêncio deixa de incomodar. Depois, o diálogo parece resultar.
Agora sou apenas eu, inteira. Deixo de ter medo de ti, da tua reprovação, falsos elogios, frases feitas, demasiado perfeitas. Choro sem medo, choro, choro, choro, agora que conheço tenho ainda mais medo e não tenho como escondê-lo.
Estou nua, completamente nua e ainda assim deixo que me abraces, a luz incide directa e violenta sobre mim. Sim, sou eu! O meu corpo, a minha alma. Sim, é teu! O meu corpo, a minha alma.
Aqui! Aqui! São estes os meus defeitos,vês? Toca! Não os tens também?
Recuas,é claro! Felizmente recuas, felizmente temes, és também tu, és tu… Tens também medo, tens também duvidas, tens também o que esconder, o que temer.
Descansa!
Luz nenhum incidirá sobre ti, cruel, fria, violenta, não enquanto quiseres,não enquanto não deixares. Dorme, continua a sonhar com a perfeição da tua vida, tu e um prado, um único prado, um único legitimo animal.
Não perdoes quanto não tens perdoar, não ames se entendes que não tens de amar, mente quando sentires que deves mentir, odeia se a tua vontade é odiar, despreza se a única saída é desprezar.
Mas pára de me apontar, não me pendures, não alistes as minhas falhas, não o faças! Não enquanto não deixares que a luz recaia também sobre ti, não enquanto não chorares.
As minhas falhas tocaram-te apenas, não te pertencem. Pára! Cala-te! Escuta-te e chora, reconhece-te!
Vês agora? Sou eu, és tu, é ela! Sim aquela és tu, é ele!
Somos nós. Afinal somos nós, únicos , iguais, imperfeitamente iguais.
Descansa...
Escolhi acompanhar o teu sonho sem uma única vez sentir vontade de te ver por inteiro, sem nunca sentir vontade de apontar um único raio de luz sobre ti.
Pede! E eu caminharei no escuro contigo lado a lado, descobrindo através do tacto, da audição,do olfacto, do paladar aquilo que a visão não me permite, aquilo que simplesmente escolheste esconder.
Descansa…