Sobre o balanço de um grande barco, sobre o sopro eficaz de um vento,
A viagem torna-se tão curta e tão vaga.
Apetece empurrar e puxar, puxar,
Apetece fazer força.
É falso quando é fácil.
Quem disse que o concreto é delicioso,
se o prazer é abstracto.
A
experiência de falhar e voltar a tentar,
a possibilidade da negação se tornar positiva.
O teu cheiro ser apenas uma brisa comum e passageira,
e mesmo assim ser agradavelmente única.
Sobre o balanço de um pequeno barco, sobre o sopro sofrido de outro vento.
A viagem torna-se longa e o prazer aumenta, e aumenta
E no auge, de todo o prazer, o cansaço vence.
A necessidade de outro dia teres de chegar,
voltas a viajar, o prazer volta, mas volta com mais força.
Á vela tudo parece ser mais real,
Sentes o suor escorrer-te na cara, os músculos doridos,
sentes necessidade de dormir, podes sonhar!
O barulho do motor torna-se incomodativo, fútil,
cheira demasiadamente bem, não existe suor,
não existe necessidade de dormir.
Não há tempo nem possibilidade de sonhar.
Evita a bússola, não busques orientação
Orienta-te!
Que a necessidade de água potável e alimento,
te façam, pensar, e te obrigue a velejar.
Que razão tem o vento?
Aquele assobio, hipócrita e presunçoso, que chora sobre ti,
em busca da razão que não têm, em busca do reconhecimento,
Da força, que apenas o concreto consegue derrubar,
da força tão igual ao menor do que as
águas,
que sustentaram e continuam a sustentar o teu barco.
Ao balanço das ondas, veleja, com toda a tua força.
Ama o abstracto quando o concreto nada te diz.
Exista ou não um cais, um porto.
Gozaste o prazer da viagem feita por ti.
Agora apenas tu podes tocar nos teus calos, e sarar as feridas.
Saboreia a vitória!
O cais é feito por ti, não tem betão.
É feito de sonhos...
O abstracto tornou-se real,
e atracou vencedor.